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019. O Jovem Rico

📇 Referências: Lc 18:18-30,Mc 10:17-31,Mt 19:16-30
🔖 Notas_de_estudo, Doutrina_e_Escatologia

Refs: Lc 18:18-30; Mc 10:17-31; Mt 19:16-30


Harmonia

O passagem do jovem rico é uma das mais famosas, e também com mais variação de interpretações no meio cristão. Todos os sinóticos relatam o ocorrido e acrescentam detalhes exclusivos. Uma harmonia somando as três passagens nos ajudará a ter uma compreensão melhor do texto.

Quando Jesus saiu, correu para ele um jovem homem (importante|de autoridade|líder), que se ajoelhou diante dele e lhe perguntou: Bom Mestre, que (devo fazer de bom|que boas obras devo fazer) para herdar a vida eterna?
Jesus lhe respondeu: Por que me chamas bom? Por que me perguntas sobre o que é bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus. Mas se queres entrar na vida, obedece aos mandamentos. Sabes os mandamentos: Não adulterarás; não assassinarás; não furtarás; não darás falso testemunho; a ninguém enganarás, honra teu pai e tua mãe.
O homem, porém, respondeu: Mestre, tudo isso tenho guardado e obedecido desde a minha juventude. O que me falta ainda?
Quando ouviu isso, olhando para ele, Jesus o amou e disse-lhe: Ainda te falta uma coisa. Se queres ser perfeito, vende tudo quanto tens, reparte com os pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.
Mas, ouvindo essas palavras, o jovem retirou-se muito triste, porque era muito rico e possuía muitos bens.
Então, vendo-o assim e olhando em redor, Jesus disse aos discípulos: Como é difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus! Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino do céu.
Os discípulos ficaram extremamente admirados com suas palavras. Mas Jesus voltou a lhes falar: Filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! Pois é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus.
Então os discípulos que ouviram isso perguntaram: Quem, então, pode ser salvo?
Fixando neles o olhar, Jesus lhes respondeu: Isso é impossível para os homens, mas não para Deus; pois para Deus tudo é possível. As coisas impossíveis aos homens são possíveis para Deus.
Tomando a palavra, Pedro lhe disse: Nós deixamos tudo e te seguimos. Que recompensa teremos?
Jesus respondeu: Em verdade digo a vós que me seguistes que, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar em seu trono glorioso, vós também vos assentareis em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por amor do reino de Deus, que não receba cem vezes mais agora no presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições, e na era vindoura, a vida eterna. Mas muitos dos primeiros serão últimos, e os últimos serão primeiros.

O jovem

Quando Jesus saiu, correu para ele um jovem homem importante, que se ajoelhou diante dele e lhe perguntou:

Vamos olhar primeiro para o personagem foco da passagem. Vemos que o jovem era rico, Lucas adiciona que era poderoso. Apesar disso o seu gesto de humilhação é sem paralelos. Sendo rico e poderoso ele corre e se ajoelha diante de Jesus e da multidão, não apenas isso, mas em seguida pede para conhecer o caminho para herdar a vida eterna, ou ao menos, questiona que atos bons ele precisaria fazer para obtê-la. Fica claro para todos seus concidadãos que aquele era um homem que não tinha firmeza da sua fé apesar de todo seu respeito e reconhecimento que tinha diante da sociedade. Talvez sua reputação nunca mais se recuperia depois deste dia.

O cumprimento

Bom Mestre, que devo fazer de bom para herdar a vida eterna?

A questão de Jesus primeiro foca no seu cumprimento: bom mestre. Não ousou chamá-lo de Bom Senhor, mas também não tratou-o como rabino (mestre). Ele não tinha segurança nem para reconhecer Jesus como Deus, nem para rebaixá-lo a um mero rabino ou doutor da Lei. Jesus deixa essa vacilação evidente.

Por que me chamas bom? Por que me perguntas sobre o que é bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus.

A questão implicíta de Jesus é: Você reconhece que eu sou Deus?

Ecoam na indagação de Jesus ao jovem a repreensão de Elias: Até quando coxearás entre dois pensamentos?

A guarda da Lei

O Senhor prossegue questionando-o sobre a guarda da Lei. Menciona diversos mandamentos, todos referindo-se ao trato com o próximo.

Mas se queres entrar na vida, obedece aos mandamentos. Sabes os mandamentos: Não adulterarás; não assassinarás; não furtarás; não darás falso testemunho; a ninguém enganarás, honra teu pai e tua mãe.

O jovem replica que guarda estes mandamentos, mas sabe que ainda falta algo. Neste momento Marcos declara que Jesus vendo isso o amou. A cena comoveu o coração do Senhor. Aquele homem poderoso e rico se humilhou diante dele e confessou sua insegurança.

O homem, porém, respondeu: Mestre, tudo isso tenho guardado e obedecido desde a minha juventude. O que me falta ainda?

Em nenhum momento nos é dado qualquer sinal que o jovem estaria mentindo. Até onde podemos entender, o jovem realmente cria estar seguindo os mandamentos da Torá. Os 613 mandamentos da Lei eram uma manifestação perfeita do caráter de Deus no seu relacionamento com o homem. A guarda dos mandamentos deveria trazer uma garantia da vida. Aquele que guardar os mandamentos, por eles viverá. No entanto o jovem se sentia confuso. Ele guardava os mandamentos mas não percebia vida em seu interior.

Se compararmos com a parábola imediatamente anterior em Lucas (o fariseu e do cobrador de impostos que subiram ao Templo), vemos que o jovem rico tinha características de ambos.

10 — Dois homens foram ao templo para orar: um era fariseu e o outro era publicano. 11 O fariseu ficou em pé e orava de si para si mesmo, desta forma: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano. 12 Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo o que ganho.” 13 O publicano, estando em pé, longe, nem mesmo ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: “Ó Deus, tem pena de mim, que sou pecador!” 14 Digo a vocês que este desceu justificado para a sua casa, e não aquele. Porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.

Por um lado o jovem rico se lança em humilhação diante de Jesus (como o publicano), por outro tem um senso muito forte de justiça própria (como o fariseu). Era necessário quebrar este impasse, então Jesus lhe diz:

Quando ouviu isso, olhando para ele, Jesus o amou e disse-lhe: Ainda te falta uma coisa. Se queres ser perfeito, vende tudo quanto tens, reparte com os pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.

Apenas Mateus adiciona se queres ser perfeito. Uma clara referência à aliança de Deus a Abraão: anda na minha presença e sê perfeito.

Jesus repete o mandamento no sermão do monte:

Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu.

O pedido de Jesus na verdade é um diagnóstico. Não basta ter um assentimento à Lei de Deus. É necessário haver uma união, uma aliança entre ele e Deus.

Paulo vai além. Escrevendo aos romanos ele diz que nenhum homem é capaz de guardar a Lei de Moisés. Somente uma instrução do tipo seja perfeito poderia evidenciar isso. O mandamento que resume a Lei também teria reforçado a ideia, como Jesus faz em outra passagem.

Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.

No entanto, se Jesus tivesse parado por aí talvez o jovem poderia ter se esquivado mais uma vez fazendo uma promessa vazia: declaro que daqui para frente serei perfeito. Mas Jesus lhe pede aquilo que lhe é mais precioso. Sua riqueza, seu tesouro. Mas o jovem não é capaz de alcançar este nível.

A oportunidade (interpretação evangélica)

Neste ponto temos a primeira divergencia nas interpretações da passagem. Alguns dizem que o jovem “perdeu a oportunidade”. Jesus lhe concedeu uma chance de ouro mas ele a desperdiçou.

Não creio que essa seja uma interpretação correta. Ao contrário, creio que o pedido de Jesus foi feito com o objetivo de resolver o impasse que mencionei a alguns parágrafos atrás. O jovem seria um fariseu orgulhoso ou um cobrador de impostos que voltou para casa justificado?

Infelizmente o jovem se revela um fariseu orgulhoso. Volta para sua casa triste.

No entanto, se a interpretação correta da passagem fosse o “atendimento ao apelo”, o jovem rico teria sido injustiçado. Ele foi a Jesus, ele se humilhou, ele reconheceu sua condição de perdido. Muitos outros episódios de salvação são relatados nos evangelhos com muito menas características. E, ao contrário, Jesus exigiu uma obra adicional como requisito mínimo. Isso vai ao encontro da doutrina da justificação pela fé somente. Portanto esta não pode ser a interpretação correta.

Os partidários da interpretação da “oportunidade” aproveitam esta hora para teorizar sobre qual seria o destino do jovem rico caso tivesse obedecido a Jesus. Talvez se tornasse um Paulo, ou no mínimo, um Matias.

Essa linha de interpretação falha ao interpretar as próximas frases de Jesus. De acordo com Jesus aquele jovem não tinha nenhuma condição de ter obedecido aquele requisito.

Então os discípulos que ouviram isso perguntaram: Quem, então, pode ser salvo?
Fixando neles o olhar, Jesus lhes respondeu: Isso é impossível para os homens, mas não para Deus; pois para Deus tudo é possível. As coisas impossíveis aos homens são possíveis para Deus.

A questão não era se o jovem obedeceria o comando de Jesus, mas sim se ele reconheceria que era incapaz de fazê-lo.

Os discípulos não ficaram impressionados com a dificuldade de ricos serem salvos, apesar de isso ter sido o que Jesus respondeu primeiramente, mas a surpresa parece ser com o quadro geral. Se esse homem que guarda os mandamentos de Deus e vai até Jesus em humilhação inquirindo sobre a vida eterna não pode ser salvo, quem pode ser?

O custo do discipulado (interpretação católica)

Observemos que a resposta de Jesus não usa os mesmos termos na resposta que o jovem usou na pergunta. Sua questão havia sido:

…que devo fazer de bom para herdar a vida eterna?

Veja o termo herdar a vida eterna. Mas os comentário após a saída do jovem dizem respeito a entrar no reino de Deus.

Nossa mente científica ocidental não pensa nos mesmos termos que a mente de Jesus, um judeu, habitante do Levante no primeiro século. Jesus sempre se expressava com relação a vida eterna e o reino como alguém vendo um quadro completo. Quando ele fala sobre a salvação ele refere-se a salvação aplicada em nosso espírito, alma e corpo. Quando fala sobre o reino refere-se ao reino de maneira espiritual na era presente, de maneira expressa e tangível no reino milenar e de maneira misteriosa e eterna nos novos céus e nova terra.

O discorrer de Jesus sobre estas coisas é como um artista pintando um quadro. Ele não precisa pintar de maneira sequencial o quadro completo de cima para baixo como uma impressora. Ele pode ir adicionando camadas e detalhes até formar a imagem completa.

Mais tarde Paulo faria mais discriminação entre cada fase da salvação e do reino, pois ele falava com gregos, e precisava comunicar a mensagem para mentes mais parecidas com as nossas.

Olhando as diversas falas de Jesus sobre o reino e sobre a vida eterna vemos que estão relacionadas, mas não se trata da mesma coisa.

O preço de entrar no reino é pago com o esforço. Por exemplo em Lucas 14:

24 Jesus respondeu:
— Esforcem-se por entrar pela porta estreita! Pois eu afirmo a vocês que muitos procurarão entrar, mas não conseguirão.

Alguns versos a seguir nos é revelado a que se trata o esforço para entrar pela porta estreita.

29 Muitos virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus.

O catolicismo romano entende estas passagens como se referindo a salvação da condenação eterna e portanto deriva a conclusão que a salvação se consegue com um esforço em boas obras. No entanto vemos que essa era a mesma visão jovem rico - que devo fazer de bom para herdar a vida eterna? - e mesmo assim ele voltou para casa triste e sem salvação.

O entendimento de uma salvação por boas obras levou a aberrações como, por exemplo, os estilitas.

Estilitas (em grego: stylos, “pilar”) ou “Santos do Pilar” formam um tipo de ascetas cristãos que, nos primeiros anos do Império Bizantino, permaneciam em pilares pregando, jejuando e rezando. Eles acreditavam que a mortificação do corpo físico ajudava a assegurar a salvação de suas almas. O primeiro estilita foi provavelmente Simeão Estilita, o Velho, que subiu num pilar na Síria em 423 d.C. e lá permaneceu até morrer, trinta e sete anos depois.
-– fonte: Wikipedia

O mandamento de Jesus para o jovem vendesse todos os seus bens é tido como uma instrução universal para salvação por muitos católicos. Daí temos o surgimento do voto de pobreza.

Esta é mais uma interpretação que ignora o diagnóstico de Jesus: Isso é impossível para os homens.

De fato, se entendermos que o mandamento “vai e vende tudo” refere-se ao livramento da condenação, temos em Jesus um requisito acima daquele de João Batista, que apenas instruía os cobradores de impostos a não cobrarem mais que o devido(Lc 3:13) para evitar o machado que estava a raiz da árvore. E sabemos que o foco do Batista era o arrependimento, não as boas obras(Lc 3:3).

O camelo e o dono do camelo (interpretação popular)

Seguindo temos:

Como é difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!
Pois é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus.

Esta passagem dá origem a outra interpretação criativa (apesar de ser desprovida de qualquer evidência arqueológia ou histórica). De acordo com esta proposta o “buraco da agulha” seria o nome dado a uma entrada na muro das cidades onde seria impossível entrar montado num camelo carregado com carga, e apenas uma pessoa sem qualquer carga conseguiria se espremer para entrar (de joelhos, alguns adicionam). Esta entrada seria usada por aqueles que estariam entrando ou saindo da cidade com um compromisso rápido e não desejavam passar pela aduana e enfrentar as grandes filas.

A lição seria, portanto, que com muito esforço em se humilhar uma pessoa conseguiria alcançar a salvação. O dono do camelo precisaria abrir mão de seu meio de transporte e de toda sua carga para se ajoelhar e passar pela minúscula porta. Isso representaria uma rendição completa de tal dimensão que comoveria Deus.

A interpretação tem um grave erro lógico. De acordo com a passagem o rico é representado pelo camelo, não pelo dono do camelo. Mesmo que seu dono consiga passar pelo buraco da agulha isso de nada aproveita para o camelo que continuará do lado de fora.

Como herdar a vida eterna?

Vimos três interpretações que falham em manter coerência com os ensinos de Jesus em outras passagens. O que as três interpretações tem em comum é que elas focam no homem. Nelas, a salvação é conquistada, merecida ou adquirida através do homem. Ele é quem dá tudo de si, demonstra um comprometimento total e humilhação plena e acaba se salvando.

Quatro evangelhos foram escritos para entendermos que a salvação do homem não está em si mesmo. “De tudo de si” não é boa notícia para ninguém. Precisamos de outra saída. Instintivamente o jovem rico sabia disso.

A chave a passagem esta nestas frases:

Então os discípulos que ouviram isso perguntaram: Quem, então, pode ser salvo?
Fixando neles o olhar, Jesus lhes respondeu: Isso é impossível para os homens, mas não para Deus; pois para Deus tudo é possível. As coisas impossíveis aos homens são possíveis para Deus.

 

A reação de Pedro

Diante desta afirmação impressionante sobre a impossibilidade do jovem rico, Pedro tem uma reação muito humana.  Podemos imaginar que a cena o deixou muito preocupado. Ele precisa se justificar. Ele precisa afirmar para Jesus que ele tem o nível de comprometimento necessário para herdar a salvação. Para isso ele interrompe Jesus:

Tomando a palavra, Pedro lhe disse: Nós deixamos tudo e te seguimos. Que recompensa teremos?

Pedro precisava assegurar sua consciência de que ele já havia herdado a vida eterna através de uma entega total. No entanto os mesmos evangelhos nos mostram que ele ainda não havia entregado tudo. Pedro negou o Senhor três vezes e ele voltou a pescar no mesmo barco que havia abandonado.

Mas Jesus não lhe lança. Pedro ainda não poderia suportar. Invés disso Jesus dá mais algumas pinceladas no grande quadro da salvação e nos revela fatos importantes sobre nossa situação atual e na manifestação do reino.

👨‍💼 Adam Foerster