Capítulo 2 - Certeza para sempre
🔖 Plena_Certeza, publicationHá uma declaração muito notável no livro de Isaías, capítulo 32, versículo 17: “A obra da justiça será a paz; e o efeito da justiça, tranquilidade e segurança para sempre”.
Segurança para sempre! Não é uma expressão maravilhosamente agradável? Segurança não por alguns dias, semanas ou meses — nem mesmo por alguns anos, ou ainda por toda a vida — mas para sempre! É esta bendita segurança que Deus se deleita em conceder a todos os que vêm a Ele como pecadores necessitados em busca do caminho da vida.
Duas palavras intimamente relacionadas são empregadas neste versículo: paz e segurança. No entanto, quantas pessoas profundamente religiosas existem no mundo que mal conhecem o significado de qualquer um desses termos? Elas estão sinceramente buscando a Deus. São meticulosas em seus deveres religiosos, como ler as Escrituras, fazer suas orações, frequentar a igreja, participar do sacramento e apoiar a causa de Cristo. Eles são escrupulosamente honestos e íntegros em todos os seus relacionamentos com o próximo, esforçando-se para cumprir todas as suas responsabilidades cívicas e nacionais e para obedecer à regra de ouro. Contudo, não possuem paz duradoura, nem qualquer certeza definitiva de salvação. Estou persuadido de que, em praticamente todos esses casos, a razão para seu estado inquieto e instável se deve à falta de compreensão do caminho da salvação de Deus.
Embora tenha vivido sete séculos antes do Calvário, Isaías foi agraciado com a missão de expor, de maneira muito abençoada, a justiça de Deus, conforme revelada posteriormente no evangelho. Isso não é de se admirar, pois ele falou movido pelo Espírito Santo.
A palavra-chave de seu grande livro, frequentemente chamado de quinto evangelho, é a mesma da Epístola aos Romanos: “justiça”. E eu sugiro ao leitor que medite um pouco sobre essa palavra e observe como ela é usada nas Sagradas Escrituras.
01. O advogado moribundo
Um advogado estava à beira da morte. Frequentara a igreja a vida toda, mas não era salvo. Era conhecido por sua integridade inquestionável. Contudo, enquanto jazia ali, encarando a eternidade, sentia-se perturbado e angustiado. Sabia que, por mais íntegro que tivesse sido perante os homens, era pecador perante Deus. Sua consciência despertada trouxe à tona pecados e transgressões que nunca lhe pareceram tão hediondos quanto naquele momento, ao saber que em breve encontraria seu Criador.
Um amigo lhe perguntou diretamente: “Você é salvo?”. Ele respondeu que não, balançando a cabeça tristemente. O outro perguntou: “Você não gostaria de ser salvo?”. “Com certeza gostaria”, respondeu ele, “se ainda não for tarde demais. Mas”, acrescentou quase veementemente, “não quero que Deus faça nada de errado ao me salvar!”.
Seu comentário demonstrava o quanto ele havia aprendido a valorizar a importância da justiça. O visitante abriu sua Bíblia e leu como o próprio Deus havia providenciado um caminho justo para salvar os pecadores injustos. O fato é que Ele não tem outra maneira possível de salvar ninguém. Se o pecado tiver que ser encoberto para que o pecador seja salvo, ele estará perdido para sempre. Deus se recusa a comprometer Seu próprio caráter por amor a qualquer pessoa, por mais que anseie que todos os homens sejam salvos.
Foi isso que tocou a alma de Lutero e trouxe nova luz e ajuda após longos e árduos meses tateando na escuridão, tentando em vão se salvar em conformidade com as exigências de líderes cegos. Enquanto lia o Saltério em latim, deparou-se com a oração de Davi: “Salva-me pela tua justiça”. Lutero exclamou: “O que isso significa? Posso entender como Deus pode me condenar em Sua justiça, mas se Ele quiser me salvar, certamente será em Sua misericórdia!” Quanto mais meditava sobre isso, mais a admiração crescia. Mas, pouco a pouco, a verdade se revelou à sua alma atribulada: o próprio Deus havia concebido um método justo pelo qual podia justificar os pecadores injustos que vinham a Ele em arrependimento e recebiam Sua palavra com fé. Isaías enfatiza esta grande e gloriosa verdade ao longo de sua maravilhosa descrição do plano do evangelho no Antigo Testamento. Com severidade implacável, o profeta retrata a condição totalmente perdida e absolutamente desesperançosa do homem, à parte da graça divina. “Toda a cabeça está doente, e todo o coração, enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã; senão feridas, contusões e chagas purulentas; não foram tratadas, nem atadas, nem amolecidas com óleo” (Isaías 1:5, 6). É certamente uma imagem repugnante, mas, ainda assim, é verdadeira para o homem não salvo, como Deus o vê. O pecado é uma doença vil que se apoderou das entranhas de sua vítima. Ninguém pode se libertar de sua contaminação, nem se livrar de seu poder.
02. Um remédio certo
Mas Deus tem um remédio. Ele diz: “Venham, vamos raciocinar juntos”, diz o Senhor. “Ainda que os seus pecados sejam vermelhos como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (v. 18). É o próprio Deus quem pode purificar o leproso de toda a sua impureza e justificar o ímpio de toda a sua culpa. E Ele o faz não à custa da justiça, mas de uma maneira perfeitamente justa.
“É na cruz de Cristo que vemos
Como Deus pode salvar e ainda assim ser justo;
É na cruz de Cristo que encontramos
Sua justiça e maravilhosa graça.
O pecador que crê é livre,
Pode dizer: O Salvador morreu por mim;
Pode apontar para o sangue expiatório
E dizer: Isso fez a minha paz com Deus.”
Assim, é Isaías quem, acima de todos os outros escritores proféticos, descreve a obra da cruz. Com os olhos da fé, ele contempla o Calvário e ali vê o Santo Sofredor morrendo por pecados que não eram seus. Ele exclama: “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós, como ovelhas, nos desviamos; cada um se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor (Jeová) fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (Isaías 53:5, 6).
Você já refletiu sobre essas declarações extraordinárias? Se não, peço que medite sobre elas agora: foi Jesus quem o Espírito de Deus trouxe à mente de Isaías. Ele quer que você também o contemple. Analise cada frase separadamente e pondere seu significado maravilhoso:
“Ele foi ferido por causa das nossas transgressões.” Faça disso uma reflexão pessoal! Inclua a si mesmo e aos seus próprios pecados. Leia como se dissesse: “Ele foi ferido por causa das minhas transgressões.” Não se perca na multidão. Se não houvesse outro pecador no mundo, Jesus teria ido à cruz por você! Oh, acredite nisso e entre na paz!
“Ele foi ferido por causa das nossas iniquidades.” Torne isso pessoal! Pense no que a sua impiedade e a sua teimosia lhe custaram. Ele recebeu os golpes que deveriam ter caído sobre você. Ele se colocou entre você e Deus, quando a vara da justiça estava prestes a cair. Ela o feriu em seu lugar. Novamente, eu imploro, torne isso pessoal! Clame com fé: “Ele foi ferido por causa das minhas iniquidades.”
Agora vá além: “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele.” Tudo o que era necessário para fazer as pazes com Deus, Ele suportou. “Ele fez a paz pelo sangue da sua cruz.” Troque o “nossa” por “minha”. “Ele fez a minha paz.”
“Ele carregou no madeiro
A sentença por mim,
E agora tanto o fiador
Quanto o pecador estão livres.”
Agora, observe a última parte deste glorioso versículo: “Pelas suas feridas fomos curados”. Você percebe? Consegue afirmar com convicção que Deus é verdadeiro e exclamar com júbilo: “Sim, eu, um pobre pecador, eu, uma alma perdida e arruinada, eu que tão merecia o julgamento, fui curado pelas suas feridas”?
“Fomos curados pelas suas feridas,
Acrescentarias tu à Palavra?
Ele mesmo é a nossa justiça feita.
A melhor veste celestial Ele te ordena vestir,
Oh, poderias estar melhor vestido?”
03. Uma velha conta acertada
Não é que Deus ignore nossos pecados ou os releve com indulgência; mas na cruz, tudo foi perdoado. Em Isaías 53:6, Ele equilibrou as contas do mundo. Havia dois débitos:
“Todos nós, como ovelhas, nos desviamos; cada um se voltou para o seu próprio caminho.”
Mas há um crédito que fecha a conta:
“O Senhor fez cair sobre ele (isto é, sobre Jesus na cruz) a iniquidade de todos nós.”
O primeiro débito leva em conta nossa participação na queda da raça humana. As ovelhas seguem o líder. Uma passa por um buraco na cerca e todas a seguem. Assim, Adão pecou e todos nós estamos implicados em sua culpa. “A morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.”
Mas o segundo débito leva em conta nossa vontade individual. Cada um escolheu pecar à sua maneira, portanto, não somos apenas pecadores por natureza, mas também transgressores por prática. Em outras palavras, estamos perdidos — completamente perdidos. Mas “o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lucas 19:10). Por meio de Sua morte sacrificial na cruz, Ele pagou à justiça ultrajada o que corresponde a toda acusação contra o pecador. Agora, em perfeita justiça, Deus pode oferecer perdão e justificação completos a todos os que confiam em Seu Filho ressuscitado.
Assim, “a obra da justiça será paz; e o efeito da justiça, tranquilidade e segurança para sempre”. A consciência perturbada agora pode descansar. Deus está satisfeito com o que Seu Filho fez. Com base nisso, Ele pode perdoar livremente o mais vil pecador que se arrepende e se volta para o Cristo da cruz.
“O pecador trêmulo teme
que Deus jamais possa esquecer;
mas um pagamento completo limpa
Sua memória de toda dívida;
os filhos que retornam Ele beija,
e os veste com Suas vestes;
Seu amor perfeito afasta
todo o terror de nossos peitos.”
Ele diz a cada alma crente: “Apaguei as tuas transgressões como uma densa nuvem, e os teus pecados como a nuvem; volta para mim, porque eu te remi” (Isaías 44:22). E novamente: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembrarei” (Isaías 43:25). Talvez você nunca consiga esquecer os anos de desvio, os muitos pecados que cometeu. Mas o que traz paz é saber que Deus jamais se lembrará deles novamente. Ele os apagou do livro da Sua memória, e o fez em justiça, pois a conta está completamente acertada. A dívida está paga!
04. Cristo nos dá certeza
A ressurreição corporal de Cristo é o sinal divino de que tudo foi resolvido para a satisfação de Deus. Jesus carregou nossos pecados na cruz. Ele se responsabilizou por eles. Morreu para os remover para sempre. Mas Deus o ressuscitou dos mortos, atestando assim o Seu beneplácito na obra de Seu Filho. Agora, o Senhor bendito está assentado exaltado à direita da Majestade nos céus. Ele não poderia estar lá se os nossos pecados ainda estivessem sobre Ele. O fato de Ele estar lá prova que eles foram completamente removidos. Deus está satisfeito!
“Ele não exigirá pagamento duas vezes,
primeiro da mão do meu fiador sangrando,
e depois novamente da minha.”
É isso que dá tranquilidade e segurança para sempre. Quando sei que meus pecados foram tratados de tal forma que a justiça de Deus permanece imaculada, mesmo quando Ele me acolhe em Seu seio, um crente justificado, tenho paz perfeita. Eu O conheço agora como “um Deus justo e um Salvador” (Isaías 45:21). Ele diz: “Trarei a minha justiça para perto; ela não estará longe, e a minha salvação não tardará” (Isaías 46:13). Que palavras reconfortantes! Ele providenciou uma justiça, a Sua própria, para homens que não a possuem! De bom grado, portanto, rejeito todas as tentativas de justiça própria, para ser encontrado nEle, perfeito e completo, revestido da Sua justiça.
Todo crente pode dizer com o profeta: “Exultarei grandemente no Senhor, a minha alma se alegrará no meu Deus, porque me vestiu com as vestes da salvação, me cobriu com o manto da justiça, como o noivo se enfeita com ornamentos, e como a noiva se adorna com joias” (Isaías 61:10).
“Revestido com este manto, quão resplandecente eu resplandeço;
nem os anjos têm um manto como o meu.”
Somente aos pecadores redimidos é dado vestir este manto de glória. O próprio Cristo é o manto da justiça. Nós, que confiamos nEle, estamos “em Cristo”; somos “feitos justiça de Deus nele” (2 Coríntios 5:21). Ele “se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1 Coríntios 1:30). Se a minha aceitação dependesse do meu crescimento na graça, eu jamais teria paz plena. Seria o pior tipo de egoísmo considerar-me tão santo a ponto de satisfazer a Deus com base na minha experiência pessoal. Mas quando vejo que “Ele nos fez agradáveis a si no Amado”, toda dúvida se dissipa. Minha alma está em paz. Tenho tranquilidade e segurança para sempre. Sei agora que somente
“Aquilo que pode abalar a Cruz,
pode abalar a paz que ela deu;
o que me diz que Cristo nunca morreu,
nem jamais saiu do túmulo.”
Enquanto essas grandes verdades imutáveis permanecerem, minha paz será inabalável, minha confiança segura. Tenho “segurança para sempre”.
Querida alma ansiosa e sobrecarregada, você não vê? Você não pode descansar onde Deus descansa, na obra consumada de Seu bendito Filho? Se Ele se contentou em salvá-lo pela fé em Jesus, certamente você deveria se contentar em confiar Nele.